Silvia Machete deixa extravagâncias tropicais para seguir a estética nova-iorquina de 'Rhonda'

Cantora lança o primeiro álbum inteiramente em inglês, com repertório aquém da sonoridade sofisticada criada pelo produtor musical Alberto Continentino.

Capa do álbum 'Rhonda', de Silvia Machete Arte de Pedro Colombo Resenha de álbum Título: Rhonda Artista: Silvia Machete Gravadora: Biscoito Fino Cotação: * * * 1/2 ♪ Lançado neste mês de julho de 2020, o álbum Rhonda lembra que Silvia Gabriela de Lima Machado é uma das melhores cantoras surgidas no Brasil ao longo dos anos 2000.

Pena que o Brasil, a rigor, ainda não saiba disso.

Até porque, ao se apresentar como cantora e compositora em 2006 com o álbum Bomb of love – Música safada para corações românticos, já com o nome artístico de Silvia Machete, a artista surgiu envolvida em aura de irreverência que abafou a afinação e a emissão límpida da voz. Artista de formação circense, Machete expandiu o conceito de “cantora eclética” ao fazer performances com o bambolê – número desde então sempre esperado nos shows da intérprete – e ao cantar em cima de um trapézio.

Proezas do gênero ficaram eternizadas no álbum ao vivo e no DVD Eu não sou nenhuma santa (2008).

Por ora o melhor álbum de Machete, o posterior Extravaganza (2010) aparou excessos e mostrou que, sim, a cantora era mais interessante do que o bambolê, rendendo o CD e DVD Extravaganza ao vivo. Ligeiramente menos inspirado, mas sedutor, o álbum Souvenir (2014) manteve Machete em tom mais “sério”, parcialmente desconstruído no posterior encontro com o cancioneiro espirituoso de Eduardo Dussek em show apresentado em 2016 em clima de cabaré circense – com bom equilíbrio entre humor e música – e eternizado no DVD Dussek veste Machete (2017).

Sétimo título da discografia de Silvia Machete, o álbum Rhonda rompe radicalmente com a estética de discos e shows anteriores de Machete – e não somente por ser álbum de repertório quase inteiramente autoral composto e cantado em inglês, mas sobretudo pela sonoridade esfumaçada que concilia ares de soul, funk e jazz, afastando Machete das extravagâncias tropicais.

É como se Rhonda fosse personagem atualmente encarnada por Machete para sintetizar a ampla vivência dessa cidadã carioca, não da gema, mas do mundo.

Como cantora e/ou artista de circo, Silvia Machete já transitou por cidades como Paris, Londres, Melbourne (onde se integrou à trupe australiana Circus Oz) e Nova York, cuja atmosfera musical parece guiar Rhonda.

Por mais que, aos ouvidos de seguidores da MPB, o título Rhonda possa remeter ao nome do samba-canção Ronda (Paulo Vanzolini, 1953), trilha sonora preferencial de São Paulo (SP), cidade onde Machete reside atualmente, o sétimo álbum da artista está impregnado da ambiência cosmopolita de Nova York (EUA).

Para ouvintes sem ciência da leitura da ficha técnica, Rhonda poderia passar perfeitamente como disco de cantora norte-americana – e não somente pelo fato de ser cantado em fluente inglês, cabe enfatizar novamente.

Silvia Machete canta músicas de Tim Maia e Rafael Torres no repertório majoritariamente autoral do álbum 'Rhonda' André Mantelli / Divulgação O repertório é composto por parcerias recém-abertas por Machete com o carioca Alberto Continentino, o paulistano Emerson Villani e o norte-americano Nick Jones.

Baixista requisitado na cena contemporânea brasileira, Continentino é nome fundamental na refinada arquitetura de Rhonda por ter produzido e arranjado o álbum, além de ser parceiro da artista em seis das 11 músicas (Carrousel, Forget to forget e I love missing you, entre elas).

Fora da seara autoral, Machete atualiza o soul de balada de Tim Maia (1942 – 1998) – With no one else around, gravada pelo cantor em 1976 para disco em inglês lançado efetivamente em 1978 – e dá voz a So many stars, canção do compositor cearense Rafael Torres que encerra o álbum Rhonda em clima de new bossa.

A sonoridade do disco é sofisticada – mérito de Continentino e de músicos como Guilherme Monteiro (guitarra), Vitor Cabral (bateria), Chicão (teclados) e do tecladista norte-americano Jason Lindner, colaborador da balada Great mistake (Silvia Machete e Emerson Villani).

Já o repertório fica muitas vezes aquém do som e do cancioneiro de álbuns como Extravaganza.

Cabe destacar a sensual canção Lips (Silvia Machete e Alberto Continentino) – envolvida em arranjo cheio de camadas – e Soon (Alberto Continentino e Thomas Harres), balada que exemplifica o tom interiorizado, por vezes cinzento, de parte do repertório de Rhonda, com destaque para o toque climático da guitarra de Guilherme Monteiro.

Roteirista de séries norte-americanas como Glow e Orange is the new black, Nick Jones é parceiro de Machete e Continentino em Messy eater, faixa de pegada de jazz-funk-latin.

Situado entre o tom soft soul de Cactus (Silvia Machete e Emerson Villani) e a batida funkeada de One of the kids you know (Silvia Machete e Alberto Continentino), o álbum Rhonda sinaliza que Machete poderia ter sido mais rigorosa na seleção de repertório para que o Brasil e – quem sabe? – o mundo descubram a tempo que Silvia Gabriela de Lima Machado canta muito bem.

Categoria:Pop & Arte